Bernardinho, 60 anos de um ícone do vôlei

bernardo

Bernardinho é o técnico mais vitorioso do voleibol mundial (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Por Sidrônio Henrique e Vanessa Kiyan
25 de agosto de 2019

 

Hoje é dia dele, o treinador mais vencedor da história do voleibol. Bernardo Rocha de Rezende completa neste domingo, 25 de agosto, 60 anos. Um capítulo à parte na história da modalidade, Bernardinho passou de coadjuvante como atleta a sinônimo de excelência como técnico. É reconhecido por fãs de vôlei ao redor do mundo e respeitado entre seus colegas (veja depoimentos abaixo).

Seu histórico à frente da seleção brasileira masculina parece inigualável. Foram 45 torneios oficiais, 28 títulos, incluindo dois ouros olímpicos e três mundiais. Sob seu comando, o Brasil subiu ao pódio 42 vezes. Ele é, em toda a história da modalidade, o técnico que mais conquistou títulos com uma seleção. Sua despedida, em grande estilo, foi com um ouro em casa, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro-2016. Desde então segue com a equipe feminina do Sesc-RJ, cuja trajetória começou em 1997, em Curitiba (PR), sob o nome de Rexona, então patrocinador. No clube, foram 12 títulos de Superliga, mais do que qualquer outro time. Além disso, quatro sul-americanos e dois vice-campeonatos mundiais.

 

GERAÇÃO DE PRATA
Como atleta, o levantador Bernardinho fez parte da chamada Geração de Prata, responsável pelo boom do voleibol no País. Foi reserva do genial William Carvalho de 1980 a 1987. Ganhou bronze na Copa do Mundo 1981, prata no Mundial 1982 e novamente prata na Olimpíada de Los Angeles-1984.

 

O treinador deixou o comando da seleção após o ouro na Rio-2016 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Ele chegou ao posto de técnico do time masculino credenciado pelo excelente trabalho com a seleção feminina (1994-2000), que sob sua batuta subiu pela primeira vez ao pódio nos grandes torneios, passando a ser reconhecida como uma potência. Foram dois bronzes olímpicos (1996 e 2000), um vice-campeonato mundial (1994) e três títulos do Grand Prix (1994, 1996 e 1998).

O voleibol masculino do Brasil já havia sido campeão olímpico antes dele, pelas mãos de José Roberto Guimarães, outro monstro da modalidade, na Olimpíada de Barcelona-1992. No entanto, foi após a chegada de Bernardinho que a seleção brasileira atingiu um nível de excelência difícil de ser igualado por qualquer equipe no mundo.

 

Bernardinho (1) foi reserva de William (7) na seleção brasileira (Foto: Acervo/Estadão)

 

RECORDES
A constelação da década passada, com nomes como Giba, Ricardinho, Dante, Gustavo, Serginho, Nalbert, entre outros craques, foi um time esférico, beirando a perfeição, meticulosamente armado pelo treinador. Logo de cara, no primeiro torneio, a Liga Mundial 2001, um ouro. Da conquista do Mundial 2002 até a da Copa do Mundo 2007, o Brasil venceu simplesmente todos os torneios globais que disputou – uma marca impressionante, até então jamais alcançada.

Mesmo episódios nebulosos, como a partida entre Brasil e Bulgária no Campeonato Mundial de 2010, em que o time brasileiro entregou o jogo para ter uma chave mais tranquila na fase seguinte, ou o tumultuado corte do levantador Ricardinho em 2007, mais tarde esclarecido, não tiram o brilho do treinador.

Carismático e tenso, Bernardinho significa vôlei de alta qualidade. Em quatro ciclos com a seleção masculina, foi a todas as finais de Mundiais e Jogos Olímpicos, outro feito incrível, somando cinco ouros e três pratas.

 

 

O Saque Viagem conversou com alguns profissionais da modalidade sobre a data. Veja o que eles têm a dizer sobre o maior vencedor da história do voleibol:

 

FERNANDA VENTURINI, ex-atleta, bronze em Atlanta-1996, mulher de Bernardinho
“O vôlei depois que o Bernardo entrou na seleção mudou 1000%. Começou a mudar tudo, a partir da mentalidade. Mudando o treinamento, ele fez com que o Brasil chegasse aonde chegou. Isso foi a chave do sucesso para o Brasil se tornar tão vitorioso desde então.”

 

Segundo Fernanda Venturini, Bernardinho mudou a mentalidade da seleção feminina (Fotos: Divulgação/FIVB)

 

STEFANO LAVARINI, campeão da Superliga e Sul-Americano com o Itambé Minas, vice-campeão mundial com o clube, atual técnico da seleção feminina da Coreia do Sul e do clube italiano Busto Arsizio
“Bernardinho é um dos técnicos que mais marcaram o vôlei mundial. Não entendo, na verdade, como é que colocaram esse apelido tão errado e redutor nele (risos). Eu já teria trocado há muito para Bernardíssimo, pelos resultados alcançados. Primeiramente, com ambas as seleções… Inesquecível o estilo de jogo inovador da masculina. Depois, com o clube, por muitos anos invencível.

O que mais define esse homem é o carisma, a liderança e a filosofia de trabalho ‘maníaca’. Liderou grandes jogadores, provando para eles que só através de muito treino, estudo, esforço e sacrifício que conseguiriam chegar ao alto nível. É a personalidade diante da competência. É com muito prazer mando para ele os meus mais sinceros parabéns. Lamento não ter tido a possibilidade de acompanhar o trabalho dele mais de perto, pois é difícil quando os técnicos são adversários. Tenho a ambição de um dia ser lembrado pelas jogadoras que trabalharam comigo, com parecido carinho, respeito, gratidão e admiração, como ele é sempre lembrado. O homem diante do técnico.”

 

DOUG BEAL, ex-dirigente e ex-treinador americano, campeão olímpico com os EUA em 1984, criou o atual sistema de jogo utilizado ao redor do mundo, com especialistas em funções e a introdução do oposto
“Meu caro amigo Bernardinho, alguém aos 60 ainda é um jovem para mim. Espero que você esteja no melhor da saúde, que desfrute a data com a família e os amigos. É fácil para mim dizer que sua carreira é única, inigualável. Tenho certeza que nenhum treinador terá tantas medalhas, tantas vitórias quanto você, seja em seleções ou clubes.

Mais do que as realizações que alcançou, você representa uma voz para a integridade e respeito pelos valores que tantos buscam. Sou um admirador seu desde a época em que você ainda jogava, nos anos 1980. Você trouxe para a modalidade uma mistura única de paixão, criatividade, humanismo e liderança que é rara.

Aqui nos Estados Unidos dizemos que os 60 são os novos 40. Espero que isso valha para você. Eu te desejo o melhor sempre. Parabéns mais uma vez, sincera e respeitosamente.”

 

Doug Beal se diz admirador de Bernardinho desde os tempos em que o técnico era jogador

 

LAURENT TILLIE, técnico da seleção masculina da França, contemporâneo de Bernardinho nas quadras
“O Brasil teve sempre grandes seleções, mas Bernardinho foi o responsável pelo maior time de todos os tempos. Uma equipe maravilhosa, com super astros, jogando com muita energia. Parecia até fantasia de tão fantástico que era. Bernardinho sempre em busca de aperfeiçoar o sistema, para melhorar ainda mais o que já parecia perfeito. Tudo isso num período tão longo, difícil de se sustentar. Uma das coisas que mais admiro nele é que está sempre pronto para dividir sua experiência com qualquer um. Muito obrigado, Bernardinho, e feliz aniversário.”

 

IGOR KOLAKOVIC, treinador sérvio, técnico do time masculino do Irã, já treinou as seleções da Sérvia e da Eslovênia
“Bernardinho é certamente o mais bem-sucedido técnico da história do voleibol, um homem que deixou sua marca com incontáveis medalhas. É impressionante e significativa a forma, tão fácil de reconhecer, como ele conduzia seus times durante os jogos, com muita energia. Ele foi único nisso também. Talvez esse jeito de ser incomode alguns, mas certamente deu às suas equipes uma força a mais.

Os resultados que ele alcançou falam por si só, mostram o alto nível do seu trabalho, mas há duas coisas em particular que eu admiro muito nele. Primeiro, ele demonstrou que pode ser bem sucedido, ao mesmo tempo, no vôlei masculino e no feminino. Segundo, ele foi capaz de vencer, de conquistar tantas medalhas tendo seu filho Bruno no time, como um dos principais jogadores. O quanto essa situação é difícil para ele enquanto técnico e pai ao mesmo tempo, somente ele será capaz de dizer. Essa interseção entre a objetividade do técnico e a subjetividade do pai exige um enorme talento para que se alcance o equilíbrio. Ele conseguiu. Feliz aniversário, Bernardinho!”

 

Igor Kolakovic enfrentou Bernardinho várias vezes na época em que comandou a Sérvia

 

MARK LEBEDEW, técnico da seleção masculina da Austrália, autor de dois livros sobre a modalidade
“Bernardinho é um dos maiores técnicos de todos os tempos. Ele é respeitado em qualquer lugar do mundo. É o tipo de treinador que os outros grandes técnicos gostariam de visitar, passar um tempo e aprender com ele.”

 

CACÁ BIZZOCCHI, ex-assistente-técnico da seleção masculina em Barcelona-1992 e da seleção feminina em Atenas-2004, comentarista do Saque Viagem
“O voleibol brasileiro tem muito a agradecer ao Bernardinho por tudo o que ele fez. Muita gente hoje tem emprego porque ele conseguiu manter o vôlei masculino entre os melhores por muito tempo. Este foi um feito que poucas equipes no mundo, na história do voleibol, conseguiram, e ele levou a seleção brasileira a este patamar. Todo mundo que trabalha com voleibol colhe deste fruto até hoje.

Se a gente for pensar na seleção feminina da década de 1990, ele tem grande responsabilidade em levar aquele time a um patamar que é mantido até hoje. O Bernardinho, na história do voleibol brasileiro, é uma das pessoas mais importantes do que a gente conseguiu em termos de respeito internacional, de qualidade de jogo, de hegemonia. E isso ele conseguiu com muita dedicação, com um trabalho diferenciado de liderança. Sempre buscou excelência.

Ele passou a ser também modelo de gestão nos negócios, extrapolou as quadras. Ele manteve também o time do Rexona, que começou em Curitiba e hoje está no Rio de Janeiro como Sesc, por décadas também no topo. Ele tem um projeto social com o Compartilhar que está em várias cidades do Brasil. Ele é respeitado no mundo inteiro, foi convidado para dirigir várias seleções que procuravam fazer um plano de longo prazo e conquistar medalhas olímpicas.

O cara é uma referência mundial. Não só no Brasil, mas no mundo, ele é referência de trabalho de qualidade, de resultado, de liderança, de gestão. Pra mim, o Bernardinho sempre vai ser uma referência significativa. O voleibol brasileiro não seria o mesmo se não fosse o trabalho que ele realizou e que ainda realiza.”

 

NALBERT, ex-atleta, campeão mundial em 2002 e ouro em Atenas-2004
“O Bernardinho merece todas as homenagens por estes 60 anos, por toda a carreira que ele construiu no esporte, desde jogador até virar técnico. Sem dúvida alguma, uma das grandes personalidades do esporte brasileiro e mundial. Quando a gente pensa em Bernardinho, a gente pensa em excelência, pensa em um cara que dá a vida por aquilo. Ele é totalmente apaixonado por esporte, apaixonado por vôlei, e ele conseguiu, principalmente na carreira como técnico, extrair o melhor de todos os times que ele teve, de todos os jogadores que ele dirigiu.

Certamente, deixou um legado muito importante na carreira de todos que trabalharam com ele. Um legado positivo de preparação, de trabalho, de sacrifício, de comprometimento, de dar valor ao propósito, de saber trabalhar em equipe, de que a coletividade é sempre mais importante do que qualquer vaidade ou que o objetivo individual. Ele traduz isso tudo e merece todas as reverências. No meu caso, eu aprendi demais com ele, tenho uma enorme admiração e respeito por todo o tempo em que a gente trabalhou junto.”

 

Nalbert foi comandado por Bernardinho na vitoriosa campanha das Olimpíadas de Atenas-2004

 

FOFÃO, ex-atleta, bronze em Atlanta-1996 e Sydney-2000, ouro em Pequim-2008
“A importância do Bernardinho para o vôlei brasileiro e mundial é muito grande. Eu trabalhei com o Bernardo na seleção e no Rexona, e ele trouxe uma mentalidade que mudou o vôlei feminino, mudou a característica do jogo. Fez um trabalho forte, mais agressivo. Tudo isso trouxe muitos resultados. Ele fez um trabalho para a gente acreditar que poderia vencer, que poderia evoluir, e isso foi comprovado. Ele mostrou pra gente que se ganha jogo no treinamento, através da nossa dedicação, que o nosso 100% vai ser recompensado de alguma maneira. Todos os atletas que trabalharam com ele, em algum momento, venceram alguma competição.

Esta mudança de mentalidade que ele trouxe fez com que o vôlei feminino (do Brasil) surgisse no cenário internacional e fizesse a gente acreditar em uma outra filosofia de trabalho. Eu vejo o Bernardo como muito responsável por esta mudança na visão que a gente tinha antes e depois do vôlei feminino. Eu acho que ele é uma pessoa que trabalha com muita competência e que faz você acreditar que pode ser melhor, que pode evoluir. Acho que este é o grande diferencial dele. Ele é um grande técnico, que fez muita diferença no vôlei, principalmente no feminino.”

 

GABI GUIMARÃES, atleta da seleção brasileira e do clube turco VakifBank, foi treinada por Bernardinho no Sesc-RJ
“O Bernardo é o tipo de pessoa que nunca vou cansar de agradecer. Aliás, até hoje agradeço por aquela partida entre Mackenzie e Rexona, que abriu muitas portas na minha carreira. A relevância dele pro voleibol mundial é indiscutível. Acho que não faltou nada pra carreira dele. E quem teve acesso a ‘pessoa’ Bernardo sabe o tamanho do coração e do caráter dele. Sempre disposto a ajudar seja quem for e sempre querendo ser a melhor versão dele e dos comandados dele.

Sinto que sou uma privilegiada por ter passado tantos anos com ele, evoluindo como atleta e como ser humano. Então eu só desejo que essa fome de vitória nunca acabe e que ele seja sempre muito feliz com a família dele. Obrigada, Bernardo. Feliz aniversário e muita saúde sempre.”

 

Gabi trabalhou com Bernardinho no Sesc-RJ (Foto: Mpix/Divulgação)

 

 

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