Dia das Bruxas: 6 viradas do terror

brasil x rússia

Brasil, em Londres-2012, salvou seis match points nas quartas de final (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Por Sidrônio Henrique
31 de outubro de 2019

 

Dia das Bruxas, ou Halloween, data celebrada principalmente nos países anglófonos, mas que tem cada vez mais adeptos por aqui. Que tal aproveitar o dia e lembrar de momentos em que a bruxa andou solta pelas quadras, tocando o terror para um lado, com resultados de assustar para quem tinha o jogo na mão e tomou uma virada monstruosa?

 

FINAL DO MUNDIAL MASCULINO DE 1970
A Bulgária era a grande favorita, jogava em casa, diante de um ginásio lotado, na capital Sofia. Invicta, a seleção búlgara encontrou resistência diante da antiga Alemanha Oriental, adversário na final. No entanto, o desenrolar do quinto e decisivo set parecia coroar os anfitriões, que finalmente chegariam ao seu primeiro grande título. Ficaram no quase…

Naquela época, com os sets disputados até 15 pontos, com vantagem mínima de dois, ainda havia a vantagem – marcava ponto quem tivesse a posse do saque. Os búlgaros começaram arrasadores a última parcial, abriram 10 a 1 e foram até 13 a 5. Alguém imagina que é possível perder uma partida assim, tendo também a torcida a seu favor? Pois foi o que aconteceu. Para desespero dos atletas e fãs búlgaros, os alemães orientais marcaram 10 pontos seguidos e ficaram com o título mundial (confira o vídeo a partir do 13 a 5). Uma virada aterradora. Até hoje a Bulgária, que 10 anos mais tarde seria finalista olímpica, perdendo o ouro para a União Soviética por 3 a 1, não tem nenhum título global.

 

Bulgária era a grande favorita no Mundial de 1970 (Foto: Reprodução/YouTube)

 

BRASIL VS EUA (FEMININO) EM LOS ANGELES-1984
No papel, era para ter sido uma vitória fácil das americanas. O time de Flo Hyman, Paula Weishoff, Rose Magers e Rita Crockett era amplo favorito diante do Brasil de Isabel, Jacqueline, Vera Mossa e Heloísa. Depois da China de Lang Ping, Zhang Rongfang e Yang Xilan, os Estados Unidos tinham a equipe mais forte daquela Olimpíada e terminariam justamente com a medalha de prata, atrás das chinesas.

Porém, antes de subir ao pódio olímpico pela primeira vez na história, os EUA tiveram que encarar uma partida dramática diante das brasileiras, na fase de grupos. Naquele tempo, o torneio de vôlei feminino das Olimpíadas tinha apenas oito equipes, divididas em dois grupos de quatro times. Os dois primeiros de cada chave avançavam às semifinais. O Brasil estava ao lado de China, EUA e Alemanha Ocidental. Nos planos da comissão técnica, ciente da impossibilidade de bater Lang Ping e cia., constavam vitórias sobre alemãs (um pouco abaixo das brasileiras) e americanas (bem mais fortes). Para surpreender as anfitriãs, o Brasil se preparou por meses, estudou com afinco as adversárias, mas faltou preparação psicológica.

O Brasil surpreendeu as americanas nos dois primeiros sets, com uma eficiência acima do seu padrão habitual no bloqueio e na defesa. Após abrir 2 a 0 (15/12 e 15/10), esperava-se combatividade do time sul-americano para fechar o jogo, mas o que se viu foi muita desorganização. Os EUA levaram os dois sets seguintes com facilidade (15/5 e 15/5), aproveitando-se do nervosismo brasileiro.

 

 

Veio o quinto set, ainda disputado com o sistema de vantagem – o tie-break só seria introduzido em 1989 –, e as americanas abriram 6 a 2. Começou então a reação brasileira. O bloqueio voltou a tocar na bola, dando à defesa a chance de produzir contra-ataques. O Brasil chegou a ter 12 a 9 a seu favor, mas aí veio outro apagão e as americanas fecharam em 15 a 12.

A ponteira Isabel, símbolo maior daquela geração, falou várias vezes sobre essa partida histórica. “Era como se eu nunca tivesse perdido na vida, parecia que eu tinha morrido. Foi total despreparo nosso, em todos os aspectos, não só o emocional. Mas ao mesmo tempo foi emocionante, não se imaginava que a gente pudesse ganhar um set sequer das americanas”, relembrou, numa entrevista de 2016.

Outro expoente daquela época, a também ponta Vera Mossa, comentou numa entrevista em 2012: “Aquele jogo mudaria nossa história. O momento ficou meio que emblemático”.

Abatida, a seleção brasileira perdeu para as freguesas da Alemanha Ocidental pelo absurdo placar de 3 a 0 – as alemãs tinham uma equipe tecnicamente inferior. O Brasil encerrou sua participação em sétimo lugar, vencendo apenas o fraco Canadá, caindo antes diante da Coreia do Sul. Apesar do resultado decepcionante, ficou a certeza sobre o potencial da seleção feminina do Brasil, que havia jogado bem contra a China (perdeu por 3 a 0, mas com parciais apertadas) e quase venceu os EUA. Mas o choque inicial pela derrota naquela batalha de duas horas e meia contra as americanas marcou os fãs brasileiros de voleibol naquela década.

 

Brasil esteve muito perto de vencer os Estados Unidos em Los Angeles-1984 (Foto: Divulgação)

 

SEMIFINAL FEMININA DE ATENAS-2004
Faltava um, apenas um ponto para a seleção brasileira feminina de vôlei chegar a uma inédita final olímpica, após ter parado na semifinal nas três edições anteriores. O time comandado pelo técnico José Roberto Guimarães vencia a Rússia na semifinal por dois sets a um e liderava o quarto set por 24 a 19, quando a levantadora Fernanda Venturini foi para o saque. A virada de bola russa na sequência, com a ponta Lioubov Sokolova, parecia normal. A diferença era grande, com o Brasil recebendo o serviço e tendo três atacantes na rede.

O que parecia mera formalidade virou um pesadelo. Uma a uma, a seleção brasileira foi desperdiçando suas chances, até que as russas fecharam a parcial em 28 a 26, levando a decisão para o tie-break. No quinto set, o Brasil voltou a liderar, mas sucumbiu no final e perdeu por 16 a 14. Foram sete match points jogados fora (seis na quarta parcial e um na última). Um pesadelo, que mesmo depois de dois ouros olímpicos (Pequim-2008 e Londres-2012) ainda incomoda muitos torcedores.

 

Brasil ficou a um ponto da final, mas perdeu set que vencia por 24 a 19 e depois o tie break (Foto: Divulgação/FIVB)

 

FINAL FEMININA DE ATENAS-2004
China e Rússia entraram em quadra para a disputa da medalha de ouro. As chinesas tinham um leve favoritismo, mas a Rússia vinha embalada pela vitória sensacional na semifinal, dois dias antes, contra o Brasil. O time russo, comandado pelo lendário Nikolay Karpol, abriu 2 a 0.

Era impossível não lembrar da final olímpica de quatro anos antes, em Sydney-2000. A Rússia ganhou os dois primeiros sets, mas levou a virada de Cuba. No entanto, o time cubano era o grande favorito e, como o próprio Karpol admitiria, “foi difícil fazer algo depois que as cubanas entraram no jogo”. Em Atenas, a China não era tão superior e as russas tinham o jogo sob controle sem depender de erros das adversárias – situação que as havia beneficiado inicialmente em Sydney. Porém, o time fraquejou nos momentos cruciais, como na reta final do tie-break. As duas maiores estrelas da equipe, a ponta Lioubov Sokolova e a oposta Ekaterina Gamova, volta e meia relembravam a fatídica derrota para as chinesas. Duas vezes campeã mundial neste século, a Rússia ainda não chegou ao ouro olímpico. Após a dissolução da União Soviética em 1991, o voleibol feminino russo foi três vezes prata nos Jogos Olímpicos*. Nos tempos da URSS, foram quatro ouros.

 

Rússia, de Sokolova, chegou a abrir 2 a 0 na final de Atenas-2004 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

QUARTAS DE FINAL FEMININA DE LONDRES-2012
Mais uma vez a Rússia, de Sokolova e Gamova, aparecia no caminho da seleção brasileira feminina. Porém, dessa vez, a tristeza seria das russas. A seleção brasileira avançou às quartas de final de Londres-2012 após ficar em um modesto quarto lugar em seu grupo. As adversárias estavam invictas.

O jogo foi para o tie-break e, para apimentar ainda mais a rivalidade entre brasileiras e russas, estas últimas tiveram seis match points. Poderiam ter fechado a partida num contra-ataque pela entrada com Nataliya Goncharova, mas Jaqueline Carvalho defendeu e entregou na mão da levantadora Dani Lins. Era dia de Sheilla Castro. A oposta brasileira salvou cinco dos seis match points – o outro foi num ataque pelo meio com Thaisa Menezes.

No final, dois saques certeiros da ponta Fernanda Garay sobre Sokolova, sobrecarregada no passe. No primeiro, ace. No seguinte, uma bola de graça, convertida em ponto numa china com Fabiana Claudino. Brasil 21 a 19. Uma tarde de terror para as russas, no tradicional Earls Court Exhibition Centre, em Londres.

 

Brasil superou a Rússia para ir à semifinal em Londres-2012 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

FINAL MASCULINA DE LONDRES-2012
A seleção brasileira masculina esteve muito perto do seu terceiro ouro olímpico antes de conquistá-lo na Rio-2016. Chegou a ter dois match points na final de Londres-2012 diante da Rússia. O Brasil começou atropelando e, com relativa facilidade, abriu 2 a 0.

A partir do terceiro set, dois fatores mudaram o jogo. Do lado russo, o único oposto de ofício da equipe, Maxim Mikhaylov, devidamente marcado pelo time de Bernardinho, foi deslocado para a entrada. Em seu lugar na saída de rede, o técnico Vladimir Alekno colocou o central Dmitriy Muserskiy, um gigante de 2,18m que às vezes desempenhava essa função em seu clube, o Belogorie Belgorod, mas nunca havia sido testado nela em jogos da seleção. Pelo Brasil, o ponta Dante Amaral começou a sentir fortes dores em seu joelho direito, o que prejudicou sua mobilidade e comprometeu o esquema tático da equipe.

Estava traçada ali uma das viradas mais espetaculares da história. Some à queda no desempenho do Brasil uma atuação de gala de Muserskiy e o resultado foi Rússia 3 a 2. O central transformado em oposto saiu da condição de coadjuvante para protagonista na final. Nos dois primeiros sets, como meio de rede, havia marcado apenas quatro pontos. Marcaria outros 27 a partir da terceira parcial para se consagrar. Uma lembrança terrível para os fãs brasileiros.

 

Com 2 a 0 no placar, o Brasil teve duas chances para fechar o jogo e se sagrar tricampeão olímpico (Foto: Divulgação/FIVB)

 

*Em Barcelona-1992, a equipe representava a Comunidade dos Estados Independentes, grupo que reuniu as antigas repúblicas da União Soviética

 

 

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