Guidetti: “Jogadoras brasileiras estão sempre lesionadas”

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Na Liga das Nações 2019, a Turquia terminou em quarto lugar, perdendo por 3 a 0 na semifinal contra o Brasil (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Por Sidrônio Henrique
19 de julho de 2019

 

Giovanni Guidetti é dono de uma verve e um senso de humor incomuns. Sempre que pode, capricha no sarcasmo. “Olha, eu acho que as jogadoras brasileiras estão sempre lesionadas”, afirma, ao ser perguntado sobre os riscos de lesões que atletas sofrem pela alta demanda das equipes turcas. “É melhor verificar o que elas (brasileiras) estão fazendo na temporada de seleções, não na de clubes”, completa o treinador italiano da seleção feminina da Turquia e do milionário clube VakifBank, do mesmo país.

Como explicar a derrota acachapante da sua seleção diante do Brasil na semifinal da Liga das Nações. “As brasileiras estavam muito motivadas porque nos últimos anos têm fracassado em todas as grandes competições”, dispara Guidetti.

Com ele é assim. A oposta Sheilla Castro foi para o banco na sua segunda temporada no VakifBank, no período 2015/16, às vezes sequer sendo listada para as partidas. “O rendimento da Sloetjes era muito superior ao da brasileira”, explica, sem cerimônia.

 

Sob o comando do italiano, Sheilla pouco jogou em seu segundo ano na Turquia (Foto: Divulgação/CEV)

 

O técnico derrete-se pela ponteira Gabi Guimarães, sua contratada para a próxima temporada. “Ela é fora de série, sabe tudo de vôlei. Todas as vezes que toca a bola, faz isso com inteligência e classe”, diz.

Guidetti vem de uma família de treinadores. Aos 22 anos, já era assistente técnico. Dois anos mais tarde, comandava uma equipe. Hoje, aos 46, é um dos profissionais mais respeitados do mundo, numa carreira solidificada à frente de times femininos. Seu currículo inclui quatro seleções europeias (Bulgária, Alemanha, Holanda e Turquia) e vários clubes. Desde 2008 está no VakifBank, que vem colocando em suas mãos verdadeiras constelações, resultando em inúmeros títulos, entre os quais quatro europeus e três mundiais.

Conquistou três pratas consecutivas no Europeu de seleções – duas com a Alemanha (2011 e 2013) e uma com a Holanda (2015) – e depois um bronze – comandando a Turquia (2017). Levou a ascendente seleção holandesa a um honroso quarto lugar na Olimpíada do Rio, em 2016. Agora, sonha em levar a jovem seleção turca, com a qual foi prata na Liga das Nações 2018 e quarto lugar em 2019, aos Jogos de Tóquio, em 2020.

 

Confira a entrevista exclusiva que ele concedeu ao site:

 

Saque Viagem – Que grandes qualidades você viu na Gabi Guimarães para decidir contratá-la para o VakifBank?
Guidetti – Eu acompanho a carreira da Gabi há muitos anos e já tentei contratá-la antes, mas não deu certo. Ela é fora de série, sabe tudo de vôlei e, olhando de fora, vemos como ela funciona bem coletivamente. Todas as vezes que toca a bola, faz isso com inteligência e classe.

 

Guidetti conquistou quatro vezes a Liga dos Campeões e três o Mundial de Clubes pelo VakifBank (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Saque Viagem – Após três temporadas, o VakifBank perde a ponteira Ting Zhu. Até que ponto uma atleta com o perfil da Gabi, muito diferente das características da chinesa, pode funcionar como uma substituta. O que você espera da brasileira? Obviamente, não é o mesmo desempenho?
Guidetti – Zhu e Gabi são jogadoras diferentes, então não dá nem para esperar algo similar. As duas são excepcionais, cada uma a seu modo, mas com características distintas. O que eu queria era ter as duas simultaneamente, seria um sonho. A Gabi certamente vai contribuir bastante.

Saque Viagem – A Gabi será a segunda estrela brasileira a trabalhar sob seu comando. Por duas temporadas (2014-2016) você contou com a oposta Sheilla Castro. Na primeira, ela foi titular, mas na seguinte não somente foi para a reserva como às vezes sequer era listada para as partidas. O que houve? Por que a Sheilla perdeu tanto espaço?
Guidetti – Sheilla foi uma jogadora excepcional, uma oposta incrível, talvez a melhor de todas quando estava no auge. Ela veio para o VakifBank em 2014 e para o clube isso foi motivo de muita alegria, mesmo que o custo fosse altíssimo, afinal o contrato dela era um dos mais caros do mundo naquela época. No ano seguinte, recebemos uma holandesa muito jovem, quase desconhecida, que era a Lonneke Sloetjes. Claro que ela veio para ser reserva da Sheilla, mas logo se tornou uma das melhores atacantes de saída de rede do mundo, como ainda é. Em pouco tempo o rendimento da Sloetjes era muito superior ao da brasileira. Foi isso.

 

A ponteira Gabi vai ser comandada por Guidetti na temporada 2019/20 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Saque Viagem – Os principais clubes turcos são fortíssimos, verdadeiras seleções, mas são vistos no Brasil como uma ameaça em potencial ao físico das atletas, seja pela carga de treinamentos, seja pela de jogos. Como você avalia o fato de constantemente termos notícias sobre atletas se lesionando na Turquia? No caso das brasileiras, ainda que não tenham sido no VakifBank, podemos citar os ocorridos com a ponta Natália (Fenerbahce) e com a central Thaisa (Eczacibasi).
Guidetti – Olha, eu acho que as jogadoras brasileiras estão sempre lesionadas. É melhor verificar o que elas estão fazendo na temporada de seleções, não na de clubes. Vou falar do VakifBank, que é o meu time, e te garanto que nas últimas 10 temporadas, tempo que estou aqui, encaramos os momentos cruciais de cada campeonato sem ter que abrir mão de nenhuma atleta, com todas as jogadoras prontas, sem nenhuma lesão.

Saque Viagem – A Turquia tem uma tarefa complicadíssima no Pré-Olímpico, numa chave com uma potência como a China, que joga em casa, um time aguerrido como a Alemanha, além da República Tcheca. Qual a sua expectativa?
Guidetti – Nossa! Se classificar agora em agosto seria um verdadeiro milagre. Claro que, às vezes, no esporte, milagres acontecem. Nós vamos dar tudo o que podemos, mas sabemos o quanto vai ser difícil esse Pré-Olímpico.

 

 

Saque Viagem – Se o time não se classificar agora, quais seriam as chances em janeiro, no qualificatório europeu, com oito equipes e só uma vaga em jogo?
Guidetti – Em janeiro vai ser muito difícil também. Para qualquer seleção europeia é um sacrifício a classificação para os Jogos Olímpicos, não é como se classificar na América do Norte ou na do Sul. Os times aqui são fortes demais, vai ser bastante complicado.

Saque Viagem – O que aconteceu com a seleção turca na semifinal da Liga das Nações, há duas semanas? O que o Brasil fez que neutralizou o seu time nos dois últimos sets?
Guidetti – A Turquia é uma seleção do bloco intermediário, distante do Brasil. Além disso, as brasileiras estavam muito motivadas porque nos últimos anos têm fracassado em todas as grandes competições. Tem mais: o salário das duas jogadoras brasileiras mais bem pagas cobre em dobro tudo o que aquelas atletas turcas ganham. Isso significa que há muito espaço para que a gente cresça e se desenvolva.

 

Guidetti diz que as brasileiras estavam motivadas na Liga das Nações “porque nos últimos anos têm fracassado em todas as grandes competições” (Reprodução/Instagram)

 

 

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