Jogador-enxaqueca, Kubiak ignora diplomacia e punição soa como prêmio

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Capitão da seleção polonesa, Kubiak coleciona problemas dentro e fora das quadras (Foto: Divulgação/FIVB)

 

Por Sidrônio Henrique
13 de junho de 2019

 

O polonês Michal Kubiak, 31 anos, 1,91m, é uma figura conhecida dos fãs de voleibol. Bicampeão mundial, é um dos raros ponteiros que não apenas domina todos os fundamentos, mas o faz o em alto nível. Porém, o que tem de craque, tem de falastrão. Foi suspenso pela Federação Polonesa de Vôlei (PZPS), com endosso da Federação Internacional (FIVB), por um ataque gratuito ao povo iraniano. A briga entre poloneses e iranianos não é novidade. O imbróglio se arrasta desde a Copa do Mundo 2011 e quase virou pancadaria na Rio-2016.

A suspensão foi anunciada na semana passada. Kubiak tomou um gancho de seis partidas – já cumpriu três e neste fim de semana cumpre o restante. O que ele disse? “Eles sempre nos insultam em quadra e não nos respeitam, mas fingem ser inocentes. Os iranianos acham que são ótimos, os melhores, e nós somos os piores. Mas acredito que são pessoas más, maliciosas, grosseiras. Para mim, essa nação não existe, embora eles se chamem orgulhosamente de persas, não de árabes. Às vezes temos que jogar contra eles, mas eu os vejo apenas como uns sacanas.”

 

Kubiak vive relação tensa com iranianos desde 2011. Aqui, imagem de 2015 (Reprodução/YouTube)

 

A declaração foi dada ao canal polonês Prawda Siatki, no YouTube, no dia 27 de maio. Dois dias depois, sob pressão, o atleta divulgou um atabalhoado pedido de desculpas: “Lamento que minhas palavras tenham sido mal interpretadas. Talvez eu as tenha dito no contexto errado. Nesse ponto, gostaria de enfatizar que estou o mais longe possível de quaisquer ideias xenófobas que me foram atribuídas. Racismo, falta de respeito pelas cores nacionais e por um adversário são inaceitáveis e vergonhosos para um atleta.”

Difícil entender em que contexto caberiam frases como “acredito que são pessoas más, maliciosas, grosseiras”, “para mim, essa nação não existe” ou “eu os vejo apenas como uns sacanas”. Melhor que Kubiak fale de vôlei.

 

FUTEBOL
No ano passado, foi ridicularizado pela imprensa do próprio país por criticar o futebol, primeiro esporte nacional – o vôlei vem logo em seguida na preferência dos poloneses. “O futebol não tem nada a oferecer. Qualquer um pode chutar uma bola”, disse, entre outras bobagens.

Encerrada a temporada de clubes na Ásia, onde joga pelo Panasonic Panthers, do Japão, Michal Kubiak teve 10 dias de férias com a família. Apresentou-se à seleção na semana de abertura da Liga das Nações, mas reclamando ostensivamente que precisava de mais tempo para si, informou ao Saque Viagem uma fonte da PZPS. Quem viu os jogos da Polônia na primeira semana da Liga percebeu a disposição dele em quadra.

 

 

A punição de seis jogos, correspondente a duas semanas longe da seleção, é conveniente para Kubiak em mais de um sentido: dá a ele mais tempo com a família (retorna na próxima semana) e evita o constrangimento de encarar os iranianos na casa deles sem parecer que fugiu da raia. A partir desta sexta-feira (14) até domingo (16), a Polônia joga em Urmia, no Irã – a partida contra os anfitriões será no sábado (15), às 11 horas (de Brasília).

 

CRÍTICAS
Nas postagens da FIVB nas redes sociais, especialmente no Instagram, centenas de torcedores iranianos têm criticado Kubiak. Muitas vezes, a postagem sequer envolve as seleções da Polônia ou do Irã. O ambiente no ginásio em Urmia certamente não será dos melhores para os poloneses – mesmo sem a presença do ponteiro.

 

Perfil oficial da FIVB no Instagram tem recebido mensagens de iranianos contra Kubiak (Reprodução/Instagram)

 

No final das contas, Michal Kubiak recebeu um prêmio, uma folga não planejada. Ofendeu os iranianos e não terá que encará-los. A FIVB sugeriu à PZPS que um representante da delegação polonesa leia, no ginásio, um pedido de desculpas ao povo iraniano. O tiro pode sair pela culatra e acirrar os ânimos – ainda mais se o texto for equivalente às desastradas palavras do capitão ausente.

Nessa briga, que lembra a rivalidade entre brasileiras e cubanas no vôlei feminino nos anos 1990, os dois lados se excedem. Há provocações de parte a parte.

 

Embate entre Brasil e Cuba foi além das quatro linhas na década de 1990 (Foto: Ivo Gonzalez/O Globo)

 

Engana-se quem acha que a verborragia de Kubiak está relacionada à restrição, em vigor no Irã, a presença de mulheres nos ginásios – algo certamente condenável, assim como o tratamento dispensado a outras minorias. Em nenhum momento o jogador polonês fez menção a esse fato. Foi um ataque direto, tolo, sem nenhuma justificativa. O entrevistador polonês perguntou sobre o Irã como alguém que conhece bem a fonte que estava diante de si. Kubiak, com a maturidade de um adolescente raivoso, sofrendo de incontinência verbal, desatou a dizer asneiras.

 

 

Na Rio-2016, após a briga na rede ao final do jogo, Michal Kubiak, durante a entrevista coletiva, seguiu provocando Saeid Marouf, levantador e capitão iraniano, até que este se levantasse e abandonasse o local aos berros. Não houve punição alguma na época para nenhum dos lados.

 

Saeid Marouf e Michal Kubiak durante raro momento de trégua (Foto: Divulgação/FIVB)

 

FALTA DE TATO
Criticar o país alheio é algo delicado e que, invariavelmente, resulta em problemas. Suponha que algum jogador iraniano fizesse o mesmo em relação à Polônia. O choro seria inevitável.

Durante uma edição do Campeonato Europeu de Natação, em 2014, em Berlim, na Alemanha, a organização do evento recebeu uma reclamação formal do Ministério das Relações Exteriores da Polônia depois que um dos apresentadores do torneio insinuou que os atletas do país roubariam carros.

“Temos aqui um grande grupo de atletas vindos da Polônia que vai voltar para casa levando nossos carros.” A piada, sem graça alguma, foi uma referência a um velho estereótipo dos poloneses entre as nações da Europa ocidental, especialmente a Alemanha. O episódio repercutiu intensamente na imprensa polonesa.

Nação em desenvolvimento do leste europeu, a Polônia tem uma população homogênea, quase sem a presença de imigrantes – até porque a política conservadora, o nacionalismo escancarado, a economia pouco aquecida, o idioma e o clima não ajudam. Por outro lado, há inúmeras comunidades de poloneses em diversos países. São alvo constante de xenofobia na Inglaterra e na Alemanha, por exemplo. Vai ver Michal Kubiak se esqueceu disso. Talvez não entenda que, até por ser vidraça, deveria ter mais empatia. Mas, principalmente, não poderia se deixar levar pelas provocações ocorridas dentro de uma quadra e ofender um país.

 

Kubiak venceu dois Campeonatos Mundiais com a seleção da Polônia: em 2014 e 2018 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

 

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