Análise: Por que a mídia trata a queda do Brasil como fracasso

Por Vanessa Kiyan - 18/08/2016 - 20h47 - São Paulo

Brasil, de Jaqueline, foi eliminado pela China nos Jogos Olímpicos (Foto: Divulgação/FIVB) 
 
 
“O Brasil era superfavorito no vôlei feminino”. A opinião do narrador Galvão Bueno, soltada durante a transmissão do futebol e repetida no "Jornal Nacional", na última noite, não é a única dentro da grande mídia brasileira. Basta um passeio pelos principais veículos do País para se constatar: a derrota do Brasil para a China foi considerada um fracasso. Fracasso que se tornou maior diante da campanha de cinco vitórias por 3 a 0 na fase classificatória.
 
Em um país que só lembra dos esportes olímpicos de quatro em quatro anos, não é difícil compreender por que, para Galvão e os veículos mais influentes, as comandadas de Zé Roberto fraquejaram. Não se buscou entender, por exemplo, quem era a China. Será que se soubesse que se trata da seleção vice-campeã do mundo, em um Campeonato Mundial em que o Brasil ficou em terceiro, daria uma dimensão maior da força do oponente?
 
O excelente repórter da Globo, Pedro Bassan, na reportagem sobre a eliminação brasileira na Rio-2016, caiu na mesma armadilha. Nesta quinta-feira (18), a jornalista Mariana Lajolo, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, seguiu o mesmo tom e cravou: o Brasil “era cotado para passar com facilidade pela China”. 
 
Não era só o Brasil o favorito ao ouro. Havia, também, outras três seleções no mesmo patamar: China, Estados Unidos e Sérvia. A Rússia, antes das apresentações pífias na Rio-2016, também tinha seu valor. Vencer os cinco jogos da fase classificatória sem perder sets, como destacou Galvão em sua “análise”, também pouco quer dizer quando são vitórias sobre Camarões, Argentina, Japão, Coreia do Sul e Rússia. Inclusive, todas já voltaram para casa.
 
Dentro do jornalismo raso, que não se apura o histórico dos adversários ou sequer se busca entender a diferença entre sair em quarto lugar do Grupo da Morte, nem sempre um demérito, e em primeiro de uma chave “baba”, nem sempre significado de favoritismo para a fase seguinte, prestou-se um desserviço à população e à seleção. Mais justo seria: “o time brasileiro perdeu para um gigante, tão gigante quanto ele”. E, por que não, o campeão olímpico da Rio-2016?