Análise: Zé Roberto usa medidas diferentes em convocação olímpica

Por Vanessa Kiyan - 18/07/2016 - 22h59 - São Paulo

Camila Brait perdeu a vaga na última competição antes dos Jogos (Foto: Préu Leão)
 
 
Imagine você passar quatro anos alimentando um sonho para, no final, ficar com a sensação de que tamanho esforço não valeu a pena. Imagine você então passar quatro anos com aquela jogadora para, no final, interromper o sonho dela. Não deve ser fácil para nenhum dos lados o corte, ainda mais o olímpico. Dói, fica marcado por semanas, às vezes, pela carreira. Mas, nesta história toda, não há bandidos ou mocinhos.
 
Como Zé Roberto falou desde que assumiu a seleção neste ano, “Olimpíada é momento”. O mantra foi repetido à exaustão toda vez que o técnico foi questionado sobre os cortes. Com a proximidade dos Jogos, a pergunta ganhou intensidade. Recentemente, no desembarque das campeãs do Grand Prix, no Aeroporto Internacional de São Paulo, Zé Roberto não quis dar detalhes. “Quero falar da vitória”, desconversou. Mas indicou que a dúvida sobre as líberos era a mais difícil de ser resolvida.
 
Pois o mistério acabou nesta segunda-feira (18). Titular absoluta por todo o ciclo, Camila Brait perdeu a disputa para Léia, que precisou apenas de uma competição para ganhar a confiança de Zé Roberto. O tal “Olimpíada é momento” caiu como uma luva. Léia e Brait se revezaram durante toda a competição. À minastenista, foram reservados os jogos mais complicados da Fase Final. Havia só dois caminhos: ou Léia sentia o peso de encarar Rússia ou Estados Unidos ou carimbava de vez o passaporte para os Jogos Olímpicos. Quis a segunda opção.
 
“Olimpíada é momento”. Brait teve quatro anos para fazer Zé Roberto colocar uma venda nos olhos e nem pensar em concorrentes. Mas, por mais brilhante que fosse na defesa e passe, a osasquense nunca se sobressaiu em um aspecto tão fundamental às líberos: a liderança. Era, ali dentro, mais uma jogadora. Nunca foi de bater no peito e assumir responsabilidades em momentos complicados. Não fazia parte de seu perfil. Do de Léia, sim.
 
 
Zé Roberto confessou que seria difícil escolher entre Brait e Léia (Foto: Alexandre Arruda/CBV)
 
 
Porém, pesava seu relacionamento com as atletas. Era uma das mais queridas do grupo. Para quem preza tanto pelo bom ambiente, como Zé Roberto, isso certamente foi um motivo de dúvida na decisão do corte. Brait também tem mais quilometragem internacional, seja como titular, seja como reserva na “era Fabi”. No último ciclo, participou de toda a preparação olímpica, mas perdeu a última vaga para Londres-2012 para a amiga Natália. À época, atravessava melhor momento que a líbero carioca. 
 
“Olimpíada é momento”. No caso da opção por Fabíola, é mais a confiança do técnico sobre uma levantadora experiente e talentosa. Ou, lá no fundo, o pagamento de uma dívida de quatro anos atrás. Fato é que Roberta, se foi bem na fase classificatória do Grand Prix, não brilhou na Fase Final. Na decisão do ouro, contra os Estados Unidos, chegou a dar prejuízo em todas as inversões das quais participou. 
 
Fabíola está sem jogar desde o fim do ano passado, quando descobriu a gravidez da segunda filha. Neste caso, Olimpíada não é momento. Não dá para saber se a falta de ritmo será recuperada a tempo de ajudar o Brasil no Rio de Janeiro. E nem a parte física. Dentro do sonho de disputar a primeira Olimpíada da carreira, abriu mão do prazer da maternidade para treinar em Saquarema. Mostrou também muita força de vontade para se reerguer após o corte traumático do pré-Londres.
 
“Olimpíada é momento”. Tandara teve uma temporada para se recuperar do nascimento de Maria Clara. Teve, também, Paulo Coco como técnico na Camponesa/Minas. Mas a oposta que se apresentou à seleção não foi nem sombra daquela que cavou seu espaço na reserva de Sheilla. Nas inversões de 5-1 no Grand Prix, custou a derrubar a bola. Em sua única chance como titular, contra a frágil Bélgica, demorou a pegar no tranco. Lesionou-se e, na Fase Final, sequer jogou.
 
De fora, viu Adenízia ser testada na saída. A central deu mais poder de bloqueio à equipe. Também confundiu a marcação com a presença de duas meios na rede. Gabi, que também virou oposta, ajudou a compor o passe. Com isso, tanto Natália quanto Fernanda Garay ficaram mais livres para atacar. A ponteira do Rio de Janeiro ainda deixou o time mais veloz. Para a saída, há também Natália, que se consagrou no vôlei nesta posição.
 
Certo é que, sem uma reserva de ofício para Sheilla, Zé Roberto ganha mais opções para mudar o jogo. O tradicional 5-1 pode ser adaptado de acordo com o adversário ou com as circunstâncias da partida, desde, claro, que Fabíola tenha condições de fazê-lo. Entre mocinhos e bandidos, a lista desta vez gerou menos ruído. E se “Olimpíada é momento”, que seja a Olimpíada de Dani Lins, Fabíola, Léia, Sheilla, Fabiana, Thaísa, Juciely, Adenízia, Jaqueline, Garay, Natália e Gabi.