Lavarini afirma que apenas três levantadoras no mundo estão acima da Macris

Por Sidrônio Henrique - 07/05/2019 - 14h32 - São Paulo

Lavarini venceu quatro dos cinco campeonatos que disputou com o Itambé/Minas na temporada 2018/19 (Foto: Orlando Bento/MTC)
 
De sorriso sempre fácil, o italiano Stefano Lavarini, 40 anos, estava mais sério do que o habitual. Era o dia de ir embora do Brasil e ele havia chorado bastante. “Foi assim ontem também, chorei o dia todo. Esse período com o Minas foi muito especial”, conta o treinador ao Saque Viagem, enquanto aguarda, no aeroporto de Brasília, o embarque para a Europa. Havia deixado Belo Horizonte naquela tarde de 30 de abril. De Brasília para Lisboa, de lá outro voo para Milão e então pouco mais de uma hora de carro até Omegna, sua cidade natal, no norte da Itália, onde a mãe e o irmão o aguardavam.
 
A família e não o dinheiro, afirma Lavarini, foi o motivo pelo qual deixou o Minas Tênis Clube, depois de ajudar a recolocar o tradicional clube da Rua da Bahia, na capital mineira, no topo do voleibol feminino brasileiro. “No Minas, eu tive tudo, sabe”, relembra o técnico.

Sob seu comando, o Itambé/Minas fez uma temporada quase impecável no período 2018/19. Em cinco torneios disputados, venceu quatro. Um deles, a Superliga, não conquistava havia 17 anos. Ganhou ainda o título estadual, a Copa Brasil e o Sul-Americano. Só não subiu no lugar mais alto do pódio no Mundial de Clubes, caindo diante da constelação do VakifBank, da Turquia, não sem antes despachar outro time turco, o também estelar Eczacibasi. Somados aos dois títulos da temporada anterior, Campeonato Mineiro e o Sul-Americano, o breve histórico de Lavarini no Brasil foi suficiente para conquistar inúmeros fãs, indo além da torcida do seu clube.

Aliás, foi tão bem nos dois anos por aqui que a Itália e a Coreia do Sul o chamaram. Em sua terra natal, voltará a comandar um clube, desta vez o Busto Arsizio, que na temporada 2018/19 terminou em quinto lugar na liga italiana. Já no país asiático, o desafio será classificar a seleção feminina para a Olimpíada de Tóquio, em 2020. O treinador tem algo em mente para tornar a equipe sul-coreana mais competitiva e não quer saber de sobrecarregar a craque Kim Yeon-Koung, MVP de Londres 2012.
 
 
O bom trabalho no Minas levou Lavarini a assinar com a seleção feminina da Coreia do Sul (Foto: Divulgação/CEV)


“A Coreia do Sul joga em função da Kim, que é uma atleta excepcional, mas um time não pode ser assim. Seria interessante introduzir no vôlei de lá alguns elementos do ocidente, das grandes potências”, comenta.

Natália, Gabi, Carol Gattaz, Macris... O técnico foi só elogios, claro, às suas ex-comandadas. Destacou também Fabíola, armadora que jogou pelo Sesi Vôlei Bauru. Sobre Macris, ele diz que vê apenas três levantadoras no mundo acima dela: a sérvia Maja Ognjenovic e as polonesas Joanna Wolosz e Katarzyna Skorupa.

Confira a entrevista que Lavarini concedeu ao Saque Viagem:
 
Saque Viagem – O que achou do voleibol brasileiro e da estrutura da Superliga nessas duas temporadas?
Stefano Lavarini – É um campeonato com um nível muito alto, muito competitivo, equilibrado. Eu gostei da estrutura. Só acho que seria mais interessante ter um calendário um pouco mais brando. São muitos jogos, às vezes fica apertado quando se joga a cada três dias. Essa é uma questão a ser discutida até em um nível mais alto, na Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Afinal, o calendário doméstico reflete as decisões da FIVB, pois as federações nacionais precisam arranjar um espaço para acomodar seus torneios. Eu acredito que seria bom questionar quantos meses os clubes e as seleções precisam estar em atividade. Para as atletas que estão também na seleção, a situação está ficando difícil por causa da carga de jogos.
 
 
Em duas temporadas no Minas, o italiano conquistou seis títulos (Foto: Orlando Bento/MTC)
 

Saque Viagem – Em relação à liga italiana, de onde você veio, como você classificaria a Superliga?
Stefano Lavarini – Eu diria que a Superliga está um pouco abaixo, só um pouco mesmo, da liga italiana. Talvez nem seja, sabe... Os times mais fortes do Brasil provavelmente jogariam de igual para igual com os times italianos. Tirando as duas equipes mais fortes da Itália, Conegliano e Novara, que estão um degrau acima, os demais estariam parelhos numa comparação dos campeonatos brasileiro e italiano. Considerando todos os times participantes, o nível médio na Itália é mais alto, mas se pegarmos só as principais equipes de cada país aí teríamos equilíbrio. É claro que na Itália há muito mais abertura para a entrada de estrangeiras e isso fortalece os clubes.

Saque Viagem – Você gostaria que o Itambé/Minas tivesse enfrentado Conegliano e Novara no Mundial de Clubes?
Stefano Lavarini – São dois dos melhores times do mundo. Teria sido interessante se naquele Mundial de Clubes que o Minas disputou na China, no final do ano passado, tivesse pelo menos um desses dois clubes italianos. Ali estavam os dois melhores times turcos e os dois melhores brasileiros, mas seria bom ter tido a presença dos italianos para termos uma ideia ainda mais precisa do nosso nível.

Saque Viagem – Como você acha que o Itambé/Minas da temporada 2018/19 se sairia enfrentando Conegliano ou Novara?
Stefano Lavarini – Nós mostramos que somos competitivos diante daqueles times turcos fortíssimos, como o Eczacibasi e o VakifBank. Mas olha a final da Champions League deste ano será entre Novara e Conegliano, não deu para as equipes turcas... Esses dois times italianos estão na final de tudo o que estão disputando... Agora, num jogo pode acontecer qualquer coisa. O Minas daria trabalho a esses clubes italianos, viu. Pode ser que a relação ficasse em 70% de chances para Conegliano ou Novara e 30% para o Minas. Mas o nosso time ia brigar muito, não ia ser fácil, não.
 
 
Lavarini ajudou o Minas a conquistar o título da Superliga após 17 anos (Foto: Orlando Bento/MTC) 
 

Saque Viagem – Você veio para o Brasil inicialmente para a temporada 2017/18, acabou ficando mais uma. Antes de chegar aqui, esperava ficar dois anos? Foi uma surpresa para você?
Stefano Lavarini – Quando eu cheguei, em 2017, tinha em mente fazer uma temporada muito boa e depois avaliar se dava para ficar mais um ano. E foi exatamente isso que aconteceu. Pelo o que nosso time vivenciou dava até para ficar mais, mas há outros fatores. Eu assinei com a federação sul-coreana e, embora o compromisso com a seleção deles não me atrapalhasse a seguir com o Minas, que me deu total liberdade de trabalhar com a Coreia do Sul, eu ficaria muito tempo longe da minha família na Itália. Imagina só se eu emendo a temporada no Minas com a da seleção sul-coreana, depois volto pro Minas, aí então, se a Coreia do Sul se classificar para os Jogos Olímpicos, outro período seguido... É muito sacrificante. Se eu levar em consideração que estou trabalhando desde a metade do ano passado e, pensando nesses períodos emendados um no outro, ao final da Olimpíada seriam dois anos seguidos num ritmo puxado, longe de casa. Trabalhando na Itália, quando não estiver na seleção sul-coreana, eu estarei perto da minha mãe, que já é idosa e viúva, e também do meu irmão. Eu adorei morar no Brasil. Quem sabe eu não volto um dia... Eu me senti super à vontade no Brasil, foi uma experiência fantástica. Gostei da liga brasileira, adorei o povo. No começo da minha aventura brasileira, eu pensei em trazer minha mãe para morar em Belo Horizonte, mas para ela seria complicado, já tem mais idade, seria difícil essa mudança. Até a viagem em si seria algo pesado para ela.

Saque Viagem – Então sua saída do Minas para o Busto Arsizio não foi determinada pelo fator financeiro?
Stefano Lavarini – O fator financeiro não teve peso algum. Zero. No Minas, eu tive tudo, sabe, todas as condições para fazer um bom trabalho. Mas, nesse momento, muito, mas muito mais do que o fator financeiro, pesa essa questão familiar.
 
Saque Viagem – O que você aprendeu à frente do Minas? O que essas duas temporadas no Brasil acrescentaram à sua carreira, além dos títulos?
Stefano Lavarini – Eu tive que me adaptar ao jogo. Embora o estilo não seja tão diferente, sempre há mudanças. Encarar novas situações te ajuda a amadurecer como técnico, te obriga a buscar soluções, te força a tentar ser um técnico melhor. A escola brasileira de vôlei é uma referência mundial, em que as coisas são feitas de uma forma um pouco diferente, então isso exige adaptação e isso me ajudou a crescer. Tudo isso amplia seu leque dali em diante quando você se vê numa situação de tomada de decisão numa partida.
 
 
Segundo Lavarini, um dos desafios no Brasil foi se adaptar ao estilo de vôlei praticado por aqui (Foto: Yuri Laurindo)
 

Saque Viagem – Há inúmeros treinadores italianos trabalhando ao redor do mundo. Já os brasileiros, apesar da escola brasileira de vôlei ser uma referência mundial, como você mesmo ressaltou, ainda são poucos no exterior. A que se deve isso?
Stefano Lavarini – Sinceramente, não sei. Talvez o mercado brasileiro seja grande o suficiente para absorver os bons treinadores que vocês têm, e ainda abre espaço para estrangeiros como eu e ainda outros que estão na Superliga masculina. Se você olha para os técnicos brasileiros que escreveram o nome na história desse esporte, a maior parte da carreira deles foi no Brasil mesmo.
 
Saque Viagem – Como foi o processo de recuperação física da Natália e da Gabi, que vinham de lesões? E os cuidados com o problema crônico no joelho esquerdo da Carol Gattaz? Como foi o planejamento para poder contar com essas três peças-chave em um campeonato tão desgastante?
Stefano Lavarini – A Gabi e a Natália são de um nível fantástico, assim como a Carol Gattaz, que é outra atleta formidável. As três foram fundamentais. Tivemos que dosar muito bem o volume de trabalho, a carga sobre essas jogadoras para não comprometer o físico delas e mantê-las com nível suficiente para ajudar o time. A temporada é longa, então foi preciso uma preparação meticulosa, muito bem planejada pela minha comissão técnica e pelo departamento médico para que nos momentos decisivos elas estivessem presentes.
 
Saque Viagem – Você sempre destacou o talento da Macris, ressaltou o papel dela no Minas. Como a avalia em relação ao cenário internacional?
Stefano Lavarini – Para mim, a Macris está bem próxima das melhores do mundo. Três levantadoras estão hoje um nível um pouco acima, até por terem mais experiência internacional. Sem dúvida, a Macris joga bem demais, seria uma peça importante para qualquer equipe do mundo.
 
Saque Viagem – Quem são essas três levantadoras que você considera as melhores?
Stefano Lavarini – A polonesa (Joanna) Wolosz, que joga no Conegliano. Aquela sérvia, a Maja Ognjenovic, de quem também eu gosto muito. Tem também a (Katarzyna) Skorupa*, outra polonesa, que ficou parada essa temporada, mas é uma levantadora que eu acho craque. Essas três estão um nível acima das demais no mundo. Mas levantadoras brasileiras como a Macris e a Fabíola brigam por um lugar entre as melhores, têm um nível bastante alto.
 
 
Para Lavarini, Macris "está bem próxima das melhores do mundo". Já Gabi tem um "nível fantástico" (Foto: Orlando Bento/MTC) 
 
Saque Viagem – E o que você acha que falta, além da experiência internacional, para a Macris chegar ao nível dessas três que você apontou como as melhores?
Stefano Lavarini – A Macris tem uma experiência muito grande na Superliga, mas foi pouco testada no cenário internacional, jogou poucas vezes pela seleção e quase sempre como reserva, não que isso seja da minha conta. No Mundial de Clubes, ela foi muito bem, a melhor levantadora do torneio. Acho que o fator principal para que ela avance é justamente essa rodagem contra as grandes seleções ou confrontos mais constantes diante dos maiores clubes. A inteligência tática e a ousadia fazem da Macris uma levantadora diferenciada.

Saque Viagem – Como você avalia o trabalho do italiano Nicola Negro**, seu sucessor no Minas? Embora não seja uma indicação sua, você o conhece bem, não é?
Stefano Lavarini – Nós nunca trabalhamos juntos, mas eu conheço a paixão dele pelo vôlei, sei o quanto ele é dedicado, o quanto é estudioso. É um cara que acompanha o esporte ao redor do mundo. Várias vezes pedi informação a ele sobre alguma jogadora porque o Nicola é um cara que segue várias ligas, está sempre ligado. Creio que ele vai se adaptar rapidamente ao Minas, pois já trabalhou fora da Itália antes. Vai ser uma aposta bem bacana, tanto para o Minas quanto para o Nicola. Não foi uma indicação minha, mas é um profissional muito bom.
 
 
 

Saque Viagem – Qual a sua expectativa para o trabalho no Busto Arsizio?
Stefano Lavarini – Primeiro eu vou pensar na seleção sul-coreana. Vou descansar um pouco em Omegna, minha cidade, depois vou para a Coreia do Sul.

Saque Viagem – A Coreia do Sul é uma equipe que está no segundo escalão do voleibol mundial, muito dependente da ponteira Kim Yeon-Koung. É um time que, na Ásia, briga com a Tailândia para ser a terceira força, atrás de China e Japão. Que filosofia de trabalho você pretende implantar naquela seleção?
Stefano Lavarini – A Coreia do Sul joga em função da Kim, que é uma atleta excepcional, mas um time não pode ser assim. Seria interessante introduzir no vôlei de lá alguns elementos do ocidente, das grandes potências. Essa cultura fechada dos coreanos se reflete no jogo da seleção deles, que ainda não incorporou muita coisa que os ajudaria a jogar melhor. É um outro tipo de esquema, bem diferente e não tão competitivo.

Saque Viagem – Seu contrato prevê uma extensão até Tóquio 2020 se o time se classificar?
Stefano Lavarini – Isso. Termina na Olimpíada de Tóquio se conseguirmos a vaga.
 
 
Lavarini fechou com o Busto Arsizio para a temporada 2019/20 (Foto: Divulgação) 
 

Saque Viagem – Aprender português não foi tão complicado por causa da proximidade com o italiano. Vai encarar o desafio de aprender coreano? Já arrisca algo nessa língua?
Stefano Lavarini – Nada de nada (risos). Acho melhor investir no meu inglês. Eu tenho que aprender mais sobre a cultura coreana, que é muito diferente da cultura italiana. Aqui no Brasil a adaptação foi fácil, brasileiros e italianos são povos parecidos, expansivos. Lá na Coreia do Sul vou ter que encontrar um meio-termo para me entrosar. A língua é uma barreira, então vou com meu inglês mesmo.

Saque Viagem – Quantas línguas você fala, Lavarini?
Stefano Lavarini – Eu falo mal o inglês, mal o português e às vezes mal o italiano (risos).

Saque Viagem – Há alguma expressão ou palavra marcante da língua portuguesa para você?
Stefano Lavarini – Quando eu estava aprendendo, eu tinha dificuldade de entender o que era saudade, que é uma palavra tão particular do português. Hoje, principalmente porque tive que ir embora, eu sei exatamente o que é saudade (fica com a voz embargada).

Saque Viagem – Você disse que sua adaptação ao Brasil foi fácil. Como era sua vida em Belo Horizonte? Tinha um lugar favorito?
Stefano Lavarini – Minha vida em BH... Eu estudava muito. Quando não estava comandando os treinos, envolvido com os jogos ou viajando, eu ficava estudando, saía pouco. Eu gostei muito da Lagoa da Pampulha. Acho que poderia ser melhor mantida, sabe, mas é um lugar fantástico. Às vezes eu ia correr na Praça da Liberdade. Esse é um ponto da cidade pelo qual eu tenho o maior carinho. Fica perto de onde eu morava, então eu saía de casa e ia correr na Praça da Liberdade. Gostei muito do Mercado Central. Foi um período bom demais na minha vida, aprendi bastante vivendo no Brasil.
 
 
"Quando estava aprendendo (português), eu tinha dificuldade de entender o que era saudade. Hoje eu sei exatamente o que é" (Foto: Orlando Bento/MTC)
 
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* A levantadora polonesa Katarzyna Skorupa voltou a jogar no meio da temporada 2018/2019 pelo Casalmaggiore.
** Nicola Negro, 39 anos, trabalhou esta temporada no Delta Trentino, clube da segunda divisão do voleibol italiano. O treinador acumula passagens pelo vôlei esloveno, polonês, romeno, turco e azeri. Em janeiro de 2015, foi demitido do Conegliano no meio da temporada.